Flamengo octacampeão: 8 trechos de textos para celebrar a alegria de ser rubro-negro

Flamengo octacampeão brasileiro. Verdade que tentamos de todas as maneiras não levantar esse título. Mais verdade ainda que a conquista mostra a força rubro-negra no momento. Afinal, não é qualquer time que conquista o campeonato mais difícil do país jogando bem abaixo de sua real capacidade em grande parte da competição.
Isso não diminui em nada o título. É só olhar o retrospecto e ver o quanto é difícil um clube conquistar o Brasileirão duas vezes seguidas. O octa veio num momento atípico de pandemia, calendário ainda mais apertado e coronavírus como nivelador técnico. Um título sem a Magnética no estádio, mas presente em todos os cantos.
A conquista veio na coletividade do time e na individualidade de uma camisa que se basta. Oito vezes campeão brasileiro sim. No campo. Nas arquibancadas. Na história e na memória.
Para celebrar, a Estante Rubro-Negra revirou as prateleiras para trazer oito pequenas amostras retiradas de textos diversos e ajudam a traduzir em palavras o que é o Flamengo.

Flamengo sessentão
Trecho da crônica “Flamengo sessentão”, de Nelson Rodrigues, publicada no sexto número da extinta revista “Manchete Esportiva” (31/12/1955). Faz parte do livro “À sombra das chuteiras imortais”, primeira coletânea de crônicas esportivas de Nelson.
“Também é de 911, da mentalidade anterior à Primeira Grande Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: – quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.

Carta a João Antero de Carvalho
O juiz Eliezer Rosa enviou uma carta ao jurista João Antero de Carvalho propondo a criação de uma lei que obrigasse o Flamengo a vencer sempre. O trecho abaixo é parte da carta de Rosa, que foi publicada originalmente no jornal “O Dia”, em 26/06/1969.
“O Flamengo não é somente um clube, uma agremiação esportiva. O Flamengo é uma religião, uma seita, um credo, com sua bíblia e seus profetas maiores e menores. O Flamengo é um amor, uma devoção, uma eterna comunhão de sentimentos. Por eles muitos deram a vida, alienaram a liberdade, destruíram amizades, arruinaram lares, com homicídios e suicídios. O Flamengo, o flamenguismo, para ser mais exato, é uma cardiopatia. O Flamengo dá febre, dá meningite, dá cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação”.

Ser Flamengo
Em homenagem ao centenário do clube, o falecido senador Artur da Távola (PSDB/RJ) fez um pronunciamento no Senado no dia 05/12/1995. O texto “Ser Flamengo”, publicado inicialmente no jornal “O Dia” em 1992, foi incluído no discurso. O trecho abaixo é parte desse texto.
“Ser Flamengo é ousar, é contrariar norma, é enfrentar todas as formas de poder com arte, criatividade e malemolência. É saber o momento da contramão, de pular o muro, de driblar o otário e de ser forte por ficar do lado do mais fraco. É poder tanto quanto querer. É querer tanto como saber; é enfrentar trovões ou hinos de amor com o olhar firme da convicção.
Ser Flamengo é enganar o guarda, é roubar o beijo. É bailar sempre para distrair o poder e dobrar a injustiça. É ir em frente onde os outros param, é derrubar barreiras onde os prudentes medram, é jamais se arrepender, exceto do que não faz. É comungar a humildade com o rei interno de cada um”.

Garotos do Ninho
O quarto trecho escolhido vem do posfácio “Garotos do Ninho”, publicado no excelente “Outro patamar”, livro escrito pelo igualmente excelente Téo Benjamin.
“O Flamengo não é uma padaria, uma escola local ou uma mineradora. O Flamengo é o Brasil, esse é o nosso DNA. É nisso que acreditamos. É a pedra fundamental da nossa cultura rubro-negra. Tudo que envolve o Flamengo ganha – e deve ganhar – proporções diferentes. É justamente por isso que somos o que somos”.

Era o Flamengo
Em 05/12/1955, o grande José Lins do Rego escreveu a crônica “Era o Flamengo” no jornal “O Globo”, fonte dos dois parágrafos abaixo:
“Há no Flamengo esta predestinação para ser, em certos momentos, uma válvula de escape às nossas tristezas. Quando nos apertam as dificuldades. Lá vem o Flamengo e agita nas massas sofridas um pedaço de ânimo que tem a força de um remédio heróico. Ele não nos enche a barriga, mas nos inunda a alma de um vigor de prodígio.
Vinha descendo para o centro da cidade o povo na cantoria feliz, gente de todas as cores. Cadillacs arvorando bandeiras, e a moçada do debique de inveja no ruído consagrador do triunfo. Não era uma classe, nem uma raça, que se rejubilava. Era aquilo que se chama povo que é mais alguma coisa. Era o meu Flamengo, na sua universalidade brasileira, clube que não tem donos ricos nem pobres reclamam. Todos só querem o Flamengo na ponta”.

O Flamengo não se explica
O jornalista e compositor David Nasser era tricolor. Mas sabia que tem coisa que transcende a lógica. Abaixo, temos um trecho da célebre crônica “O Flamengo não se explica”.
“É uma paixão como um rio, que tivesse nascido como um fio d’água numa cordilheira e rolasse por um continente, crescendo, avolumando-se num monstruoso curso d’água de paixões, de esperanças, de vibrações, de mágoas, de decepções. Assim é o mistério do Flamengo”.

Histórias do Flamengo
O ilustre Mário Filho, jornalista que dá nome ao nosso Maraca, foi o autor de “Histórias do Flamengo”, obra canônica sobre o Mais Querido. O livro é um clássico de ponta a ponta. E no primeiro capítulo “Introdução ao Flamengo”, podemos ler:
“Mas a pergunta ainda está sem resposta; por que o Flamengo se tornou o clube mais amado do Brasil? Ou por que foi o Flamengo o escolhido, justamente o Flamengo e não outro? Talvez por causa da legenda ou da saga do Flamengo. Ou, quem sabe, porque o Flamengo se deixe amar à vontade, seja o mais fácil de se amar. Não impõe restrições a quem o ama. Aceita o amor do príncipe e do mendigo, e se orgulha de um e de outro. Se um flamengo matasse pelo Flamengo, seria um herói; se morresse por ele, um mártir ou um santo”.

Mais um aniversário – o Flamengo e a República
O livro “Ser Flamengo”, lançado em 2006, reuniu crônicas escritas por diversos rubro-negros para o blog Flamengo NET. Uma delas é “Mais um aniversário – o Flamengo e a República”, de João Marcelo Ehlert Maia, onde podemos ler o trecho abaixo.
“O Flamengo é grandioso, mas não tem ares de nobre aristocrático. Sua grandeza vem da familiaridade e da crença de um povo na sua própria força e inventividade. Nosso time não vive apenas de tradição e salas de troféus (embora tenhamos muito das duas coisas), mas sim da energia apaixonada de milhares de indivíduos que vêem no Flamengo uma encarnação do potencial democratizante do Brasil. Vermelho e negro como uma vela de macumba, o Flamengo mostra que para ser elegante não precisa de um aristocrático salão em Laranjeiras. Também não precisa ser “o primeiro time que aceitou negros” para ser popular. O Flamengo não “aceitou” ninguém, ele foi tomado de assalto por uma massa de brasileiros que encontrou ali sua identidade original, identidade esta que não precisa de babados para ser elegante. O Flamengo tem a postura altiva de uma idosa mãe de santo, e desfila em campo e na arquibancada com o refinamento de uma escola de samba. Isso é elegância à brasileira”.